Crônica da testa ambulante


Hoje levei minha testa para passear.
Acordei antes do sol nascer. Mas não assisti ao espetáculo de frente, apenas senti o apartamento iluminar aos pouquinhos. De qualquer maneira, eram 5:30, e ainda faltava tempo para abrir o comércio das ruas aqui de baixo. Ainda mais sábado. Ainda em ritmo de gato, dediquei-me a banhar meu rosto de água fresca, lavando os poros com um sabonete em cuja propaganda caí como um patinho (sem culpa). O caso é que, para aplicar o produto me foi preciso uns grampinhos que prendiam a franja ao coro deixando nua a testa.
A testa, essa sobre a qual já tanto escrevi, personagem de dilemas, questões e poesia minha. Chega a ser protagonista. Abri, novamente os olhos e, pelo espelho, cumprimentei minha testa.

- Quanto tempo!

Foi quando decidi a levar para passear.Deve ser muito chato, realmente, limitar-se à convivência com minha cabeça e inconsciente.Pobre testa, que tantos anos esteve por trás dos fios de cabelo, sem ver o sol, as amendoeiras, as pessoas. Tanto tempo sem sentir a brisa da vida, sem olhar, perceber, sentir e sugar, nos poros, o mundo. Mas hoje dei a ela o que ela queria: ser testa.
Ser, simples e puramente, como parte de um bicho. Convenhamos, a testa há de ter uma função. Se não, o fato de ela existir dá, a ela, uma função, já por tal fato. Este óbvio e imenso fato: a testa existe. Então, lá fui eu e a testa, descendo a ladeira. Senti-la me conduzir, como se andasse apressada, querendo desesperada e apaixonadamente recuperar o tempo perdido, o tempo que esteve escondida. Eu cortei franja cedinho, não chegara aos dez anos, ainda.
Lembro bem quando tomei a decisão. Estava na sala de aula e a professora pediu que eu entregasse folhas sulfite, enquanto meu colega recolhia a atividade anterior. Fui percorrendo os corredores formados pelas carteiras organizadas em fileiras, obedecendo à tarefa. Eis que veio meu colega, que, por ter começado um tanto antes e por ser, além disso, mais rápido, colar nas minhas costas para continuar seu trabalho.
Ele queria ir no mesmo sentido que eu, mas tinha outro ritmo. Eu era o obstáculo, estava na frente, atrapalhando seus movimentos.
Era o menino mais popular da série, o mais desejado, o mais bonitinho, bem vestido. Chegava a ter aqueles beiços avermelhados.
E lá estava montada a cena, ele querendo passar, brincalhão, extrovertido, querido, seguro, rápido, bonito, forte, grande (éramos do mesmo tamanho físico). E eu, insegura e existencial. ” olha a Maria Luiza, com a testa sem cabelo” – cantarolou a voz masculina que soava, alto e gigante na melodia de sambalelê, com letra adaptada à situação.
Acompanhavam petelequinhos nos meus ombros e, na segunda repetição da brincadeira-trilha-sonora, alguns tapinhas no bloco que eu segurava nos braços. Na minha memória, aquela sala gigante foi banhada por gargalhadas aterrorizantes. E sou incapaz de relatar como foi realmente, uma vez que só sei mesmo da minha memória. Hoje, chego a pensar que existe a possibilidade de ninguém ter nem sequer escutado, nem dado risada, nem ligado. Chego a achar que tanto fazia, para os outros, a minha testa. Mas eu achava minha testa especialmente grande. De fato, comparativamente, exatos 4 dedos a mais que a da minha irmã.
Claramente um fator sem a menor importância.
Seja como for, o importante, hoje, é que hoje minha testa foi passear.
E foi na frente.

[Mallu Magalhães]

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