mesmo nos dias ruins também podemos nos surpreender


De alguma maneira eu achava que deveria ter ficado no meu quarto. Aquele pesadelo estava me sufocando, mas minha cabeça de vento fez questão de ignorar a situação e por isso acabei indo pro colégio. Nessa hora do dia o ônibus vai lotado de estudantes, mas nos últimos dias era como se ele estivesse vazio. Menos hoje! Esqueci meus fones de ouvido no bolso do outro casaco e tive que ouvir o papo sem graça daquelas duas que nem parecem que vão ao banheiro, e fizeram questão de sentar na minha frente.

Apesar de tudo consegui me perdoar pela falta de memória...

Aquele último mês foi o que mais de doeu. Me fez em farrapos, sem exagero! Depois que papai nos deixou minha família, meio que, deixou de ser uma família. O acidente que ele sofreu voltando do trabalho naquela terça de inverno foi fatal e o cara que ultrapassou o sinal vermelho não imaginou que dentro daquele carro havia um herói. 

Mamãe ficou arrasada! Me parte o coração ver os olhos dela focando a TV da sala, sendo que na realidade a alma dela está quase chegando na lua. Ela decidiu que seria melhor voltarmos pro interior pois o custo de vida é bem menor e não seria tão perigoso ir pro colégio de ônibus. Desde o acidente ela não dirige mais e nem sabe se um dia vai conseguir pegar no volante outra vez. 

As coisas jamais seriam como antes!

Por sorte, ou puro propósito divino, encontrei na biblioteca do colégio o livro Pollyanna, escrito em 1913 por Eleanor H. Porter que mudava as idéias de lugar através do "jogo do contente" que consiste, basicamente, em encontrar algo para se estar contente, em qualquer situação por que passemos. Claro que isso não é fácil, mas tomei coragem para tentar quando li que o jogo ela aprendeu com o pai.

Depois de derramar muitas lágrimas por causa dos fatos e depois de ver muitas lágrimas derramadas pelos olhos da minha mãe eu consegui entender que a coisa que meu pai mais me ensinou foi ter forças para enfrentar todas as dificuldades. Mas, mais importante que isso, era ser forte para lembrar a mamãe que eu ainda estava ao lado dela e que tínhamos de cuidar uma da outra, afinal, era isso que ele sempre fazia com a gente. Resolvi jogar o jogo do contente e enxergar o lado positivo de tudo isso, que pode nos acalentar, afinal, ainda tínhamos uma a outra.

E mesmo nos dias ruins também podemos nos surpreender. Quem diria que palavras escritas no início  do século passado poderia se encaixar tão bem na minha vida, no meu momento...

2 comentários:

  1. Li a história de trás pra frente, mas deu pra entender igual. haha PARABÉNS! tá muito boa!

    Beijos,
    santaironia.blogspot.com.br

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    1. Hahaha, é que escrevi um pouco. Era só aquilo e pronto. Depois decidi fazer uma continuação...
      Obrigada pelo comentário
      *-*

      beijos.

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